Passando a limpo a história


Olá amigos, depois de um longo tempo volto a escrever aqui na página do Tarso, na verdade parti para uma carreira solo, um projeto meio quixotesco é verdade, de um blog para denunciar a tentativa de destruição do autódromo de Jacareapaguá, o http://sosautodromorj.blog.aol.com.br.

Há um ano escrevi uma coluna chamada "Crônica de um assassinato anunciado" em que denunciava a possível destruição do autódromo, nessa coluna eu puxava desde a construção da primeira pista, no longínquo ano de 66 até os dias de hoje, contestando as diretrizes tomadas pela Prefeitura.

O que aconteceu de lá para cá é o objetivo deste relato que começo agora.

Em setembro de 2004, vi pela primeira vez o muito bem guardado projeto do tão falado Master Plan, com as diretrizes básicas do projeto, ele já havia sido republicado, pois na primeira licitação não apareceram interessados no projeto, que previa que as empresas construiriam o complexo esportivo e em troca receberiam o direito de explorar os equipamentos por 50 anos, renováveis por mais 50. Até aquele momento eu estava só de ouvir falar do projeto, sem ter tido chance de lê-lo detalhadamente. Um dos principais problemas era que para as construtoras é que não interessava explorar equipamentos esportivos e o autódromo, pois esses, segundo eles, eram de baixa rentabilidade e não compensavam o investimento.

Então a Prefeitura veio com as "contrapartidas econômicas", na qual ela disponibilizava áreas próximas ao autódromo para exploração comercial da empresa vencedora por igual prazo da concessão de uso dos equipamentos.

Para viabilizá-lo a Prefeitura precisava votar uma lei que modificaria o gabarito dos prédios da região além de modificar a destinação da área do autódromo, de preservação ambiental para comercial e residencial.

Na republicação do projeto, foram colocados prédios de apartamentos em plena reta principal, demolindo-se as arquibancadas, um shopping e os equipamentos esportivos e o hotel, além de que se previa a remoção de todas as residência do entorno do autódromo para serem entregues à iniciativa privada para se fazer um empreendimento imobiliário.

Isso foi no final do ano, como já vinha fazendo uma campanha, de início tímida, em que muitos não creditavam no que eu dizia, consegui em dezembro de 2004 uma cópia do Master Plan em CD, em que constavam além do contrato, a planta do projeto.

Prontamente consegui aliados que me ajudaram a colocá-la na imprensa, o que provocou uma imediata reação da Prefeitura e do Consórcio, primeiro, durante a própria votação, a Câmara de vereadores, com muitos parlamentares novos que sequer tinham ouvido falar no projeto, ficaram estupefatos com a proposta, mas nada havia a ser feito, pois além da convocação extraordinária feita pelo Prefeito havia os acordos feitos pelos partidos antes da posse dos atuais parlamentares. Nos restou assistir a pantomima de uma votação encomendada, mas que dada a repercussão que teve na imprensa, soou falso demais.

A partir daí recebemos o auxílio de várias pessoas que já estavam envolvidas separadamente em brigas com a Prefeitura, no caso o Clube de Ultraleves situado no setor norte do autódromo, e que o projeto previa que teria a construção de um hotel, a pendenga jurídica era que o aeroclube fosse removido para que se construísse o hotel no lugar do aeródromo.

E havia a questão da Vila Autódromo, que estava ameaçada de remoção desde 1993, a Prefeitura tentava de todo jeito retirar aquela comunidade carente dali.

Só havia um pequeno problema: o autódromo não pertence à Prefeitura, e sim ao Estado. Surpresos? É que a situação fundiária do Rio de Janeiro é confusa, principalmente depois da extinção do Estado da Guanabara, muito imóveis ficaram em nome do Governo do Estado e essa era a situação do autódromo, a Prefeitura era apenas um administrador do local, mesmo fazendo as obras do Oval, ela continuava sem ser dona da pista.

A confusão se explica porque a Prefeitura se baseia em uma legislação que nunca foi cumprida por culpa deles próprios, pois quando o autódromo foi reformado em 77, a Prefeitura assumiu a administração do espaço, aguardando a desapropriação final do terreno que estava sendo feita pelo Estado frente à falida Caledônia Empreendimentos, processo que se arrastou até 1999, quando o juiz que deu o laudo final ao processo e arbitrou a entrega do terreno ao Rio-Previdência, caixa previdenciária dos funcionários do Estado do Rio de Janeiro. Isso porque a prefeitura descumpriu sua parte no contrato, não mantendo a F1 aqui, que vim a descobrir depois foi o principal motivo da construção do autódromo em 76, trazer e manter a F1 correndo no autódromo carioca, pois aqui era o cartão postal do país. O Estado chegou a entrar com um processo de reintegração de posse do autódromo que foi depois abandonado pois a Prefeitura acenou com a construção do Oval e a reforma do autódromo para a vinda da Cart para o Brasil.

Hoje a situação da Prefeitura em relação ao autódromo é delicada, além da empresa que ganhou a licitação ter estado com dificuldades em ter o contrato aprovado pelo TCM (Tribunal de Contas do Município) a Prefeitura tem tido dificuldades em tocar as demais obras do Pan, o que coloca em risco a possibilidade dessas obras serem abandonadas no meio do caminho, ou que ao final dos Jogos os equipamentos sejam deixados de lado.

Então, temos o seguinte panorama: de um lado a Prefeitura jogando com a desinformação ora anunciando um novo financiador para as obras do autódromo ( a última foi que um banco francês entraria na jogada), em outro momento anunciando a assinatura do contrato para a semana seguinte, nesse ritmo já se passaram cerca de seis meses e nem um pedra foi movida dentro do autódromo.

Lógico que essa situação pode mudar, mas ao contrário da situação da época em que escrevi a primeira coluna denunciando a possível destruição da pista, agora estamos muito mais bem armados para enfrentar essa ameaça. Temos duas ações na justiça estadual e a CBA está alerta para a qualquer momento entrar com uma liminar impedindo as obras caso elas aconteçam. Além disso temos a mobilização dos pilotos cariocas e até mesmo de outros Estados que se revoltaram contra a decisão da Prefeitura em alterar o traçado do autódromo.

Pois a grande pergunta que não quer calar é: Porque o autódromo se há tanto espaço vazio do lado de fora dos muros?

Porque por trás do Pan 2007, tramou-se essa manobra de especulação imobiliária, eu chamaria isso de grilagem, tomar um terreno público para construções particulares, ainda mais quando soubemos que o único equipamento previsto no projeto original para o Pan dentro do autódromo era um estádio olímpico, que hoje encontra-se em construção no bairro do Engenho de Dentro, que foi possível graças a uma permuta com o Governo do Estado.

Ou seja, inventaram novos equipamentos para justificar essas obras, e de quebra tem feito de tudo para impedir que hajam competições automobilísticas dentro do autódromo, pois assim tiram o interesse da mídia e do público sobre o assunto.

Talvez agora, com a vinda da maior categoria automobilística nacional ao Rio, a coisa mude, pois os olhos do país inteiro estarão olhando para cá. E eu estarei aqui com a minha bandeira contando a verdade para todos.

Me desejem sorte nessa empreitada, vou parar de ser ingrato com o Tarso e vou mantê-lo atualizado do que vem acontecendo aqui no Rio, afinal de contas, graças a ele consegui entrar para esse mundo maravilhoso do automobilismo. Grande abraço para todos. André Buriti Até a próxima

ANDRÉ BURITI

Email: buraite@ig.com.br