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Crônica de um assassinato anunciado
Caros amigos, hoje a coluna vai se transformar num túnel do tempo, para podermos entender o que está acontecendo com o nosso autódromo de Jacarepaguá.
Quando o autódromo foi construído nos idos dos anos 60, ele ficava em um empreendimento particular, a Barra da Tijuca era um imenso areal onde só se tinha chácaras e casas de veraneio, ninguém achava que ali haveria especulação imobiliária como a que ocorria em outros locais da cidade, até mesmo por ser uma área particular. Na hora que desse na telha dos donos eles poderiam acabar com tudo e construir outra coisa ali. Só que no final dos anos 60, durante aquela guerrinha ridícula da CBA com o Automóvel Clube do Brasil, o autódromo de Interlagos ficou fechado para obras, então o automobilismo em peso mudou-se para o Rio de Janeiro. Aí se fazia necessário ter uma pista de verdade para que os carros pudessem correr, porque naquela época se corria em qualquer lugar, tipo Ilha do Fundão (se hoje lá é um deserto, imagine nos anos 60), Petrópolis (nas ruas de paralelepípedo), até mesmo nas ruas do Centro do Rio, mas o automobilismo se modernizava, vários acidentes graves vinham acontecendo, acharam por bem pôr um pouco de juízo na cabeça dos pilotos e elegeram o autódromo de Jacarepaguá para realizarem as corridas que não podiam ser feitas em São Paulo. Tivemos provas memoráveis, mesmo após a reabertura de Interlagos. Jacarepaguá ganhou uma projeção nacional, o traçado da pista era bom, tirando o fato que se você saísse da pista não havia área de escape, era pântano mesmo, e com um desnível de quase um metro de altura, mas mesmo assim era muito melhor que correr nas ruas da cidade. Bem, para não fugir do assunto, veio a fusão Estado da Guanabara/Estado do Rio de Janeiro, o autódromo já praticamente pertencia ao Estado da Guanabara, havendo inclusive sido assinado um contrato de venda do terreno para a construção definitiva do autódromo, mas a coisa veio enrolando, enrolando, e quando foi feita a fusão, haviam sócios do empreendimento que estavam descontentes com os valores negociados, até porque havia sido lançado o ambicioso plano Lúcio Costa de ocupação da orla de Jacarepaguá, que se fosse cumprido à risca, tornaria o bairro como um dos mais aprazíveis da cidade, aliás a linha Amarela como conhecemos também é projeto daquela época. Havia grandes projetos viários que interligariam a longínqua Barra da Tijuca ao resto da cidade. Era óbvio que logo aqueles terrenos iriam valorizar barbaramente. Chegou-se a ponto de constituírem uma CPI na Câmara do Deputados, para esclarecer de uma vez por todas aquela situação de vende/não vende, o que acabou com o governo Federal e a todo-poderosa CBA decretando a desapropriação e tombamento da área para uso exclusivo de atividades automobilísticas (isso está escrito no documento), inclusive devendo o governo do Estado incumbir-se da construção de outro autódromo caso aquele tivesse que ser irremediavelmente destruído. Bem, isso seria o melhor dos mundos se não tivéssemos tido a fusão dos estados em 74, esse decreto é datado de 71/72 se não me engano, a situação ficou meio nebulosa, pois o Rio de Janeiro não era mais estado, mais sim um município, e quem deveriam fazer a manutenção? A prefeitura ou o governo do novo Estado do Rio? A situação perdurou durante algum tempo, era mais uma questão jurídica do que realmente um problema de fato, pois quem estava administrando continuou administrando o autódromo até o seu fechamento em fins de 76 para uma reformulação total de traçado e instalações. Na verdade desde a fusão que o autódromo pouco recebia atividades, dada a confusão que reinava de liminares e procurações, inclusive dos ex-donos para a retomada do terreno, pois já era latente que a Barra seria o caminho natural do crescimento da cidade, inclusive já começam a pontear projetos como o Athaydeville, um conjunto monumental de torres cilíndricas, que seriam em número de quatro e por baixo, interligando-as, seria um enorme shopping center, onde todas as necessidades dos moradores dos prédios seriam supridas, chamaram-no de louco, mas na época mostrava o quanto se acreditava no potencial da região. Os clubes de veraneio se multiplicavam e se sofisticavam, muitas pessoas começavam a se interessar em procurar casa na região da Barra da Tijuca, como uma forma diferente de se viver, perto do mar, sem poluição nem trânsito, ainda mais agora, que tinha sido construída uma portentosa obra de engenharia, o Viaduto do Joá, um viaduto panorâmico de dois andares que serpenteava de São Conrado até a Barra, realizando junto com o túnel que passa sob a Rocinha (na época era rocinha mesmo, no diminutivo), a tão sonhada ligação com a Zona Sul. No final das contas o autódromo caiu no colo da prefeitura, depois de uma longa argumentação jurídica de que se o autódromo antes pertencia à cidade do Rio de Janeiro, que era Distrito Federal, ou estado do Rio de Janeiro, como queiram, deveria continuar pertencendo de fato e de direito à cidade. Foi feito um acordo com o novo Estado do Rio de Janeiro através do qual o Estado cuidaria do autódromo, podendo fazer as obras de infra-estrutura que fossem julgadas convenientes.Na verdade a prefeitura não tinha condições de cuidar do autódromo, naquela confusão de reestruturação de autarquias e repartições, era melhor se livrar de mais um problema, com esse acordo saíram as verbas para a tão sonhada reconstrução do autódromo dentro dos padrões mais modernos da época seguindo o exemplo de Paul Ricard, na França, considerado um dos mais modernos do mundo. Em 77, autódromo novo em folha reinaugurado, tivemos o Festival da Velocidade, várias provas aconteceram para marcar a inauguração da nova pista e instalações, em que pese que estava um calor insuportável e a grama ainda não tinha se enraizado nas áreas de escape, provocando violentas capotagens nos carros que saíram da pista. Na época foi saudado como um dos mais modernos do mundo, praticamente com o mesmo traçado que temos hoje, tanto que em 78 sediamos o GP Brasil de F1, aquela prova histórica em que Emerson Fittipaldi chegou com o seu F5-A em segundo lugar, daí pra frente é a história que conhecemos mais ou menos, foi sede do GP de F1 até 87, com o novo traçado de Interlagos perdemos de vez a prova que nunca mais voltou a correr aqui, mas em que se pese o acidente o Philippe Streiff, que ficou paraplégico em acidente nos testes de pneus em Jacarepaguá, o que acabou vetando o circuito carioca para outras provas da categoria. Mais tarde, com o nosso atual alcaide já na prefeitura, em 95 sediamos a Rio 400. Houve uma completa reforma no autódromo com a construção de um "trapeziodoval"que colocou a pista de novo como uma das melhores do mundo, tanto é que passamos a receber a motovelocidade , que vinha correndo no Brasil há alguns anos mas em pistas que se até tinham características técnicas boas, tipo Goiânia e Brasília, não tinham o apelo emocional do Rio de Janeiro. Basta ficar na frente dos boxes e ver as montanhas grandiosas abraçando todo o cenário em volta do autódromo pra ver como a nossa pista é especial. E isso não é história minha não, basta perguntar para qualquer piloto estrangeiro que correu aqui naquela época. Bem, então chegamos aos nossos dias, o nosso alcaide, depois de perder a prefeitura para o seu aliado político, Luiz Paulo Conde (perder de mentirinha, claro). Ele pretendia voltar à prefeitura, mas cheio de planos novos, cheio de idéias, e entre eles estava a idéia de ganhar mais dinheiro com o autódromo. Lógico que durante a gestão de Conde, como os dois eram aliados e "amiguinhos" políticos, não se enganem, todos o são seja em menor ou maior grau, um deveria preparar o terreno para o outro, mas nessa história o autódromo estava fora de cogitação, ele estava lá muito bem obrigado, o antigo kartódromo que tinha sido destruído para se fazer o oval seria substituído por outro do outro lado da pista, atrás da curva 4 do oval, aliás ele está lá quase pronto, com o asfalto-base colocado, e pago do bolso dos kartistas, pois quando foram pedir dinheiro ao Conde ele disse que não tinha, mas não proibiria a obra se ela fosse bancada por eles, pois bem esse era o estado de coisas quando o Cesar Maia assumiu a prefeitura, mas ele assumiu a prefeitura com um plano ambicioso, lembram-se da candidatura "Brasília 2000" para as Olimpíadas? Pois é, o nosso alcaide achou que isso seria legal para o Rio e tratou de bolar um plano para fazermos as olimpíadas aqui. Sabem o que era o projeto original? Era fazer as quadras e todo o projeto de reubarnização na área de Bonsucesso, onde é hoje o terrível Complexo do Alemão, um mega-projeto de inclusão social onde seriam reurbanizados os bairros de Bonsucesso, Ramos, Acari, Ilha do Fundão, onde seriam construídas as instalações olímpicas, uma beleza, coisa de primeiro mundo, ainda mais pra nós que ainda lembrávamos do massacre de Acari onde dezenas de pessoas foram barbaramente assassinadas, seria a redenção daquela população sofrida onde iriam chegar os empregos com as obras, a reurbanização melhorando a qualidade de vida e o esporte para dar um destino mais digno àquelas crianças abandonadas pela sociedade. Isso tudo seria muito lindo se uma série de reveses não minassem a candidatura da cidade ao postulado olímpico. Então nosso alcaide tentou um sonho mais modesto e conseguiu trazer o Pan para cá. Nada mau, não é uma olimpíada mas já é um começo, disseram, depois poderíamos aproveitar as instalações e a experiência adquirida para organizar uma olimpíada e por aí vai, mas aí a coisa começou a mudar de figura. Misteriosamente os planos foram mudados, de repente não era mais Bonsucesso, era Barra, não era mais Fundão, mas Autódromo, não dava pra entender nada, mas a explicação agora me parece bem clara. Quando assumiu a prefeitura o alcaide foi cobrar um aumento no "aluguel" do autódromo, o que foi rechaçado, pois o contrato não previa aumentos, a menos que fossem negociados e que tivessem um mínimo de realidade no que era pedido. Mas o que o prefeito queria era um motivo para uma briga. Simplesmente ele despejou a PPE do autódromo, junto com o pessoal do rio Motor Racing Clube, que pra quem conhece são pessoas altamente profissionais no que fazem e que tem no autódromo sua segunda "casa". E fecharam tudo, protestos como os que o Lincon Mendes, piloto aqui do Rio fez, chamaram a atenção da mídia, houve uma certa movimentação contra o fechamento, mas sempre tentaram minimizar as coisas dizendo que éramos um "bando de plaboys"e que as pessoas precisavam de emprego, praticamente jogando a opinião pública contra o automobilismo, dizendo que eles estavam tomando os empregos das pessoas, etc e tal. Do jeito que a coisa está aqui no Rio de Janeiro, se nós não estivéssemos sempre realizando corridas, o autódromo já teria sido invadido pelos favelados. O prefeito está tomando uma atitude estranha, se olharmos do ponto de vista de que ele gastou uma fortuna para reformular o autódromo para a Rio 400. Será que não haveria uma forma de se viabilizar o autódromo para o uso normal e torná-lo mais atrativo para os pilotos e para o público? Do ponto de vista de infra-estrutura básica o autódromo sempre esteve pronto, é um dos autódromos que oferecem a melhor visibilidade entre todas as pistas do mundo, seja para os pilotos ou para o público. As arquibancadas, apesar de antigas não oferecem perigo aos torcedores, haja vista que quando ocorrem provas da Stock ou da MotoGP, cerca de 20 mil ou mais pessoas se aglomeram ali, e nunca se soube de trincas ou rachaduras na estrutura, o máximo que existe são alguns pontos onde o embolso caiu, nada que uma obra séria não resolva. Os boxes são bons, tem o suporte necessário para que uma equipe se instale confortavelmente, com todos os recursos necessários, como tomadas de eletricidade e fornecimento de ar comprimido. Então, porque essa guerra contra o autódromo? Eu acho que desde de que ele, o prefeito, retomou o autódromo depois de brigar com o Nélson Piquet, que detinha os direitos de uso e organização de eventos, resolveu que iria por abaixo tudo o que foi construído.Não é de hoje que se escutam histórias do tipo vamos construir um estádio olímpico, vamos construir um estádio poliesportivo vamos construir um velódromo...etc. Por que essa gana de se construir onde já existe uma área construída ? Por que essa fixação no autódromo? Isso tem uma explicação muito simples: grana, muita grana. Já não é de hoje que as construtoras têm um olho grande naquele complexo do autódromo. É um terreno que vale uma fábula, na beira da lagoa, imagine ali um complexo de marina com casinhas cinematográficas num lugar bucólico, ao lado da civilização? Todo mundo quer não é? Mas tem uma coisa: Tem um autódromo ali, e em uso, por mais que a Secretaria de Esportes tente minar nossos esforços, existe um calendário de provas, praticamente toda semana tem uma atividade, seja ela corrida ou arrancada, isso se pagando 3 mil reais ao dia, que é o preço do aluguel do autódromo, seja ele para uma corrida de bicicleta ou de F1. Seria fácil se toda vez que quiséssemos fosse só ligar pro Rui Cezar, o Secretário de Esportes, e dizer que a grana estava depositada para abrir o autódromo, mas não é assim. Eles sempre arrumam uma desculpa, muitas vezes nos preparávamos na quinta-feira para levar o carro para o autódromo na sexta sem saber sequer se abririam o portão pra gente. Se a coisa é assim, porque inventar essa estória de complexo Pan-Americano? Mais simples ainda: lembram quando eu falei lá em cima que o terreno onde está o autódromo é um pântano? Pois é, imaginem o peso de quatro piscinas olímpicas sobre aquele terreno instável à beira de uma lagoa. Vai afundar tudo, inclusive levando junto a pista, deformando-a e inutilizando-a, isso se a retirada das áreas de escape e o trânsito dos caminhões e tratores sobre a pista não acabarem com ela antes. É tudo um plano bem orquestrado: contratam-se as empreiteiras a peso de ouro, elas constroem/destroem no autódromo, a pista fica inutilizada, a CBA não homologa a pista, aí tio Cezar resolver aumentar mais alguma coisa, tipo construir um sambódromo no que restar da reta de chegada, aí com uns três ou quatro anos, as piscinas começam a afundar no terreno movediço (ou vocês acham que as piscinas vão ficar prontas primeiro? Eles vão deixar pra terminar por último pra só darem problema depois que o Pan tiver acabado), aí a prefeitura diz que não tem mais dinheiro (nesse ponto o cara já elegeu outro bucha pra ficar guardando o lugar dele enquanto ele não se reelege), e num ato de "sacrifício" a prefeitura entrega o espaço para a iniciativa privada por uma concessão de 99 anos (lembram-se da Light?). Aí é correr pro abraço, as construtoras terão na mão um terreno valorizadíssimo, com Metrô e o escambau a quatro, em troca de botarem uns caras pra tomarem conta de uma piscinas que ninguém do povão vai usar porque é muito longe de suas casas.Com isso os interessados embolsam sua parte no butim e se mandam. Não sei se o pessoal do Rio lembra nas obras do RioCidade, como a Net expandiu seus cabos sem gastar um centavo pegando uma carona nas obras de reurbanização. Existe um crime em andamento, se não tomarmos alguma atitude é melhor ir chorar depois na cama que é lugar quente. A divulgação do edital para a concessão do Autódromo sai em duas semanas, eles vão entregar para a iniciativa privada, é o primeiro passo para a destruição de mais um patrimônio público de nossa cidade. Será que ninguém vai impedir isso? Desculpe pelo longo relato galera, mas acho que consegui mandar o meu recado. Até a próxima ANDRÉ BURITI Email: buraite@ig.com.br
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