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É isso aí amigos, depois de ter trabalhado como colunista de preparação de
motores resolvi sair da teoria e por a mão na massa. A história começou em
maio do ano passado quando eu, inocentemente, a caminho da Bienal do Livro
no Riocentro, fiquei curioso com um Speed 1600 azul e amarelo em cima de um
caminhão, parado num posto de gasolina na entrada do autódromo. Fui lá pra
ver de perto, e de quem era o Speed? Do meu amigo Arnaldo (Deko) Soares que
estreava o carro, e a categoria, naquela que seria a primeira prova da
temporada de 2003, bem, eu imediatamente abandonei os planos de ir pra
Bienal e me enfurnei no maravilhoso mundo do automobilismo esportivo. Vocês pensam que correr de carro é fácil? Só pra quem está dentro do carro porque o resto é uma trabalheira só, como era a primeira prova, a gente nem sabia se o carro ia funcionar e tinha um zilhão de coisas erradas, tais como: velas com grau térmico errado, suspensão com os amortecedores soltos, caixa de direção frouxa, pneus gastos e fora de calibragem, óleo sabe-se lá quando que foi trocado pela última vez, e ainda por cima um detalhe: não tínhamos preparador nem ferramentas. Eu, com a minha formação técnica do SENAI ainda sabia bastante coisa, mas não estava preparado pra lidar com um 1600 a ar de competição, são motores bastante exigentes em matéria de acerto, mas demos a cara pra bater e fomos à luta. O Deko tinha vindo da Formula Classic, em São Paulo, onde corria com uma Alfa GTA, até que ele ia bem, mas era aquele esquema de pagar e correr, ele nem via a cara do motor, nenhum demérito pra ele, mas pra de repente se tornar chefe de equipe e dono do próprio carro e ainda por cima pilotar já era demais, e aquele final de semana rendeu um bocado de dor-de-cabeça. A pista era um caso a parte, o César Maia, nosso Prefeito, estava em guerra com a Federação Carioca, o autódromo tinha ficado fechado por mais de cinco meses e só tinha sido aberto para que se podasse o mato que em alguns lugares chegava a quase dois metros de altura, dava pra esconder um carro ali dentro. A Stock iria correr na semana seguinte e estava pagando a limpeza do mato, a pintura, essas coisas, a FAERJ aproveitou a deixa e colocou a primeira etapa na semana anterior à prova, era uma forma de não deixar a peteca cair enquanto negociava outras datas com a Secretaria de Esportes do RJ. A coisa foi feita meio na lambança, não recolheram o mato cortado, e como quase não faz sol aqui no Rio, já viu né? Monturos de mato seco espalhados pelo acostamento da pista esperando a primeira faísca pra virar uma bela duma fogueira. Na mesma hora os pilotos enxergaram o perigo, se reuniram e viram que daquele jeito não dava, bastava um carro sair da pista, se aquele mato pegasse em alguma parte quente do carro como um coletor de escape e pronto, o desastre estava feito, como a pista só tinha sido capinada pela metade, a parte sul com o final do retão e o complexo de curvas que incluem e “90”e a “vitória”, resolveram usar apenas o circuito “club”, que, para quem não conhece é a metade sul do circuito onde se interrompe a reta dos boxes na altura da saída do mesmo e se pega a reta principal por um retorno que sai mais ou menos no meio do retão, era uma forma de pelo menos se ter corrida, pois era humanamente impossível usar a pista inteira, pois existiam pontos no setor norte que sequer tinham sido capinados. Quanto ao mato cortado foi feito um mutirão: os pilotos, mecânicos, e quem mais estivesse disposto iria juntar o mato na caçamba das picapes, tinham várias delas, de propriedade dos próprios, até nosso caminhão-prancha entrou na dança e carregou fardos e mais fardos de grama seca para um local seguro, longe da pista, porque além de serem um perigo de incêndio, com o vento forte iam para a asfalto e obstruíam os radiadores dos carros, aquilo tava mais parecendo um safári do que uma corrida. Depois do mutirão de limpeza, debaixo daquele sol de fritar ovo no asfalto, fomos para o treino, além do mato a pista tava cheia de areia, cortesia do vento constante que vem do mar, e começaram as rodadas, a saída da curva do circuito club dava de frente pro paredão da reta principal, comecei a ficar com medo de alguém se esborrachar ali. Quanto ao nosso piloto? Ia bem, obrigado, parado no boxe com a gente tentando de qualquer jeito acabar com as falhas em alta rotação, era um tal de tirar calço da bóia de carburador, pegar giclê emprestado com outra equipe (é tinham outros malucos correndo na Speed também), entortar suporte de bóia, e regulando tudo de ouvido, porque a gente não tinha a mínima idéia do que poderia ser o problema. Por telefone orientamos um amigo pra comprar as famigeradas NGK BP9, velas frias, pois as que estavam montadas no carro eram quentes demais, eram especificadas pra correm em Sampa, não no nosso calor senegalesco. Só sei que lá pelas tantas, o motor começou a fazer um barulho esquisito, o Deko entrou no boxe com uma cara de assustado perguntando: “- Será que quebrou alguma coisa?” A gente checou o ponto de ignição, deu uma atrasadinha, e o barulho sumiu, disse pra ele pra poupar o carrinho, que amanhã era dia de corrida, nem importava de largar em último, como a gente estava como cego em tiroteio, o negócio era largar e ver no que dava. No dia seguinte, fui pra guerra: botei a caixa de ferramentas completa no carro, com direto até a marreta, para o caso de uma lanternagem-relâmpago. Foi um anti-clímax, largamos e o carro não deu nem três voltas, voltou com um barulho fortíssimo de metal contra metal, fiquei chateadíssimo, achei que tinha feito algo errado, mas como íamos saber o que fazer no carro se somente tínhamos tomado contato com ele, inclusive o piloto, na véspera? O mais engraçado é que vários amigos nossos tinham ido ao autódromo para ver a nossa estréia, ficamos lá nos boxes especulando qual teria sido o motivo da quebra, lá pelas tantas alguém lembrou de comer, já passava de quatro da tarde e mal tínhamos tomado o café da manhã, nossos estômagos uivavam, algo precisava ser feito, o Deko lembrou que tinha que levar o carro pra casa, e depois a gente ia pra algum lugar pra comer, eu sugeri levarmos o carro para minha casa, pois moro relativamente perto do autódromo, e de lá partiríamos para algum rodízio de massa ou algo parecido para nossa fome leonina, saímos em comboio pelas ruas de Jacarepaguá com direto até a um belíssimo Chevrolet Fleetline do meu amigo Zé Rezende Mahar. Entramos gloriosos pelas ruas apertadas do condomínio onde moro, com aquele bando atrás, descemos o Fusquinha da carreta, os vizinhos olhavam assustados aquela aparição insólita naquele final de tarde de domingo, um bando de doidos tentando colocar o Fusca na garagem, empurrado, é claro, pois o motor já não dava mais sinal de vida, não deu certo, o bichinho é tão baixo que não passava na rampa da garagem, entalava, colocamos o bicho de volta no caminhão, o Deko, a essa altura já queira me esganar, pois o escape quase quebrou quando tentávamos subir com o carro na garagem. Mortos de fome, despachamos o carro pra oficina dum amigo nosso da Pça da Bandeira e fomos cair na massa, rodízio é claro. Depois dessa rocambolesca aventura, ficamos mais de um mês sem notícias, mas num belo dia me toca o telefone, era o Deko avisando que finalmente teríamos a segunda etapa, e novidade, com mecânico! Mas isso é história para uma próxima coluna. Enquanto não rolam as provas do Campeonato de Turismo nem Arrancada, vou contando as aventuras do nosso “Herbie”, quando houver corrida colocarei a cobertura da prova, a próxima etapa do Turismo será dia 23 de maio, caso a prova marcada pela CBA, F-Brasil e Campeonato de Marcas, não acontecer no dia previsto, dia 09 de maio, pode ser que a gente pegue essa data pra correr. Abraços a todos. ANDRÉ BURITI
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